
A primeira vez que entendi o arquipélago

O que os noronhenses pensam — e raramente falam pra turista
Fernando de Noronha tem cerca de três mil habitantes permanentes num arquipélago de 26 km² no meio do Atlântico, a 545 km de Recife. Desse total, 17 km² são da ilha principal, onde acontece praticamente tudo. O restante são ilhotas e rochedos inacessíveis que fazem parte do Parque Nacional Marinho, administrado pelo ICMBio. A maioria dos moradores que conversei — e foram pelo menos uns oito, entre guias, funcionários de pousadas e pessoas da Vila dos Remédios — tem uma relação ambígua com o turismo de massa. Por um lado, é a economia. Por outro, a Taxa de Preservação Ambiental (TPA), que todo visitante paga por dia de permanência (em torno de R$ 130 a R$ 160 dependendo do período — acho que sim, melhor confirmar nos valores atualizados no site do governo de Pernambuco), financia serviços que beneficiam quem mora ali. A escola, o posto de saúde, a manutenção das estradas. Mas tem uma crítica que ouvi repetida vezes: o turista médio chega, vai às praias mais fotografadas, posta nas redes e vai embora sem entender nada da cultura local, da história da ilha como presídio político durante o Estado Novo, da relação centenária com o mar. "A galera quer Baía do Sancho mas não sabe nem que Noronha foi colônia penal", disse Marcos, um guia credenciado de uns 38 anos, enquanto dirigia uma Moto Elétrica — o transporte padrão da ilha — pela Estrada Velha do Sueste.Onde os locais vão de verdade

O que evitar — sem papas na língua
Primeiro: não alugar quadriciclo se você não está acostumado. Parece óbvio, mas vi pelo menos dois acidentes menores em cinco dias. As estradas têm irregularidades e o sol ofusca. A Moto Elétrica (alugada por volta de R$ 120 a R$ 150 por dia) é mais segura e mais sustentável. Ou o buggy, com motorista incluso. Segundo: não nadar na Praia do Leão depois das 16h. Não é superstição. É orientação do ICMBio. Tubarão-cabeça-de-touro frequenta a área. Os placas estão lá, mas as pessoas ignoram porque a água parece calma. Terceiro — e esse é o que mais me incomodam como jornalista que cobre cidades e seus ecossistemas: não chegue na ilha sem nenhuma pesquisa sobre o que é permitido fazer. Tocar nos corais? Proibido. Alimentar a fauna? Proibido. Entrar em trilhas sem guia credenciado em determinadas áreas? Também. A multa existe e é aplicada. Não é blefe. Pena que muita gente só descobre isso quando já recebeu a autuação. Quarto: evite ir em alta temporada (dezembro-janeiro e julho) se você tem sensibilidade a multidão. A ilha fica saturada de um jeito que prejudica tanto a experiência quanto a própria conservação. Os noronhenses com quem conversei preferem — para si próprios — o período de setembro-outubro. Água mais quente, menos gente, golfinhos-rotadores em quantidade absurda no Canal do Sueste (eu vi uns trezentos de uma vez, parei de contar na casa dos duzentos).A questão que ninguém responde direito

Como chegar e o básico que você precisa saber
Os voos saem de Recife e Natal. De Recife são uns 45 minutos, de Natal uns 30. As companhias Gol e Latam operam a rota — os preços variam absurdamente dependendo da época, mas espere pagar entre R$ 600 e R$ 1.800 por trecho em média (acho que sim, melhor confirmar nos agregadores de passagens). A TPA é cobrada por dia, em reais, e vale guardar o comprovante. O pagamento é feito online antes do embarque ou no próprio aeroporto da ilha. Acomodação na Vila dos Remédios — o núcleo urbano central — é geralmente mais barata do que nas pousadas próximas às praias do sul. Não é tão conveniente pra quem quer só praia, mas é onde você vai ouvir os melhores causos à noite. Transporte na ilha: Moto Elétrica ou buggy. Carro de aluguel convencional também existe mas é menos comum. As estradas principais passam pela BR-363 e pela Estrada da Baia dos Golfinhos — nomes que você vai ouvir o tempo todo.Feche os olhos e pense no barulho do mar


